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Um som que silencia. Ciência e colonialidade nos estudos musicológicos da música cokwe da Lunda, 1961 e 1967.

                         Fig 1   fig 2

Figuras 01 e 02. Folclore Musical de Angola. Volumes I e II, Povo Quioco (Área do Lóvua e Camissombo).  Imagens retiradas da webpage Memórias de África e do Oriente. Disponível em <http://memoria-africa.ua.pt/collections/museuDoDundo/tabid/185/language/pt-PT/Default.aspx>. Acesso em outubro de 2012.

 

Cristina Sá Valentim (CES-UC/CRIA-FCTUC/GAIEPC)

Introdução[1]

A colonialidade pode ser definida, tal como Valentin Mudimbe (1988) a concebe, como um processo de disjunção cultural e ontológica que tem por base um profundo etnocentrismo epistemológico. Numa relação de poder desigual, a colonialidade alimenta-se de um sistema de representações essencialistas fundado em lógicas classificatórias metonímicas, tanto de exclusão como de reconhecimento simultâneo.  Este regime classificatório opera a partir de um pensamento universal soberano que torna   inteligível a diferença numa perspetiva cartesiana, sendo a natureza o lugar do Outro e a cultura o lugar do Mesmo.

A partir daqui, delineiam-se pares de opostos tais como primitivo/civilizado, pagão/cristão, tradicional/moderno, infantil/adulto, intuição/ciência, emocional/racional, entre outros, e que expressam a colonialidade do Poder (QUIJANO, 2009), ou seja, um modelo de poder que consiste na produção de discursos, conhecimentos e normas estruturadas em torno de uma política racial e de estereotipia cujos objetivos são a segregação social, a exploração laboral, o controlo político de quem se institui como subalterno e a legitimação do próprio processo de dominação. Nesta retórica de controlo está implícito um controlo estratégico em contornar (e até, por vezes, eliminar) o que o Outro sabe e é. Desta forma, o colonialismo é também um exercício da colonialidade do Saber (LANDER et al, 2005) e, consequentemente, do Ser (MIGNOLO, 2003), visível na imposição de formas de pensar e agir que culminam na exaltação de uns e na deturpação ou silenciamento epistemológico e ontológico de outros.

Ainda antes de serem uma ocupação territorial, os colonialismos europeus começaram por ser uma formação discursiva, ou seja, um conjunto de premissas ideológicas e culturais a partir das quais se entendeu (e efetivou) a ocupação de outros territórios enquanto uma ação válida e legítima. Em nome da Civilização, do Cristianismo e do Progresso (hoje denominado de desenvolvimento) situados no Ocidente, os processos modernos europeus de expansão dos finais do século XVIII e de colonização subsequente constituíram-se em conhecimentos hierarquizados. Nesse contexto, a ciência participou na forma de um conhecimento com pretensões de universalidade, inscrevendo-se no mundo como um processo colonial (SANTOS, et al, 2004). O processo de imposição de autoridade, de naturalização da verdade e consequente diferenciação social, onde assentam as lógicas da colonialidade, surge inscrito não só numa base racional mas também numa miríade de crenças e premissas ideológicas que servem para legitimar a validade de um discurso sobre um outro discurso – os regimes de verdade de Foucault (1980a), ou paradigma, na linguagem de Thomas Kuhn. E uma das crenças remete justamente para a ideia de que a produção de conhecimento reside somente e naturalmente no Ocidente, ou como Valentin Mudimbe (1988, p. 15, tradução nossa) refere: “a crença de que cientificamente não há nada para ser aprendido a partir ‘deles’ a não ser que seja já ‘nosso’ ou que venha de ‘nós’”.

Todo o conhecimento, e nomeadamente o científico, surge em função de um discurso e torna-se ‘saber’ ao ser praticado dentro de jogos de forças desiguais. Este saber é um conhecimento regulador que, ao produzir conhecimento sobre, produz um certo tipo de poder em relação àqueles que tornou conhecíveis e, assim, sujeitos ao exercício desse mesmo poder (FOUCAULT, 1980a). Desta forma pode ser dito que é o poder, e não a realidade factual (a verdade não existe), que produz o conhecimento, o saber – um saber parcial, político, implicado e estrategicamente construído. A verdade é contextual e depende de quem tem o poder e o conhecimento (idem).

Este texto problematiza as representações coloniais presentes em dois estudos musicológicos publicados em 1961 e 1967 e que integram o espólio da Diamang em arquivo na Universidade de Coimbra[2]. Ao longo deste artigo pretendo analisar de que formas, na relação colonial do contexto da Lunda em Angola, o discurso científico ocidental foi construindo hierarquias epistémicas e ontológicas entre diferentes modos de ver o mundo e de o praticar.


[1] Este artigo corresponde a uma versão do ensaio intitulado A exclusividade e a exceção. Uma análise da relação entre seres e saberes na Lunda colonial realizado para o Seminário “Conhecimentos, Sustentabilidade e Justiça Cognitiva” coordenado pela Profª. Doutora Maria Paula Meneses, ano letivo 2011/2012, no âmbito do meu doutoramento. Esse ensaio foi divulgado na Revista eletrónica Cabo dos Trabalhos dos doutoramentos do CES e que serviu de base a uma comunicação apresentada no Seminário Internacional “Cânone, Margem e Periferia nos Espaços de Língua Portuguesa” na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa no dia 17 de dezembro de 2012. Agradeço a todos que participaram com comentários críticos e pertinentes nos dois Seminários, acabando por contribuir para a revisão desse ensaio e para a redação do presente artigo.

[2] O espólio consiste em arquivos de natureza documental, audiovisual e fotográfica que foram adquiridos pela Universidade de Coimbra em 1987. Parte desses materiais já se encontram disponíveis no projeto Diamang Digital (www.diamangdigital.net). Ao longo do texto estão indicadas siglas que correspondem aos seguintes materiais: RAMD (Relatório Anual do Museu do Dundo), RMMD (Relatório Mensal do Museu do Dundo) e FML-NM-III, (Folclore Musical da Lunda – Notas da Missão, Vol. III).

Continuar a ler o artigo em: 

http://www.nucleodecidadania.org/revista/index.php/realis/article/view/53/63

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