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Entrelaces entre desejo e capital

Pensando o Contemporâneo no fio da navalha: entrelaces entre desejo e capital

Claudia Abbês Baêta Neves

Foucault chamava atenção para a emergência, desde o século XIX, de uma nova tecnologia de poder que funciona tomando “posse da vida desde o orgânico ao biológico”. Ele a denomina de biopolítica e mostra que ela se exerce tomando a população. Já não toma mais o corpo para individualizar, docilizar e disciplinar, mas o toma para operar uma individualização que recoloca os corpos nos “processos biológicos de conjunto”, como fenômenos coletivos que só ganham pertinência no nível das massas.

Apesar de funcionar de modo inverso às antigas tecnologias de poder da soberania, — expressas na vontade e no direito do soberano de “fazer morrer e deixar viver”, — e da disciplina, — que rege a multiplicidade dos homens para torná-los individualidades a serem controladas, treinadas e vigiadas, o biopoder não as apaga. Ele as conjuga, “penetrando-as, perpassando-as e modificando-as” e, em seu exercício de “fazer viver e deixar morrer” toma a vida do homem como ser vivo, como espécie.

Do ponto de vista biopolítico, estes processos de intensificação da vida estão incondicionalmente conjugados aos processos de ativação das forças produtivas e de sua reprodução, pois o modo de produção capitalista, hoje, materializa-se não só em toda a sociedade e em todas as relações sociais, mas também, e, primordialmente, no governo da “natureza humana” e da vida em sua virtualidade. Os afetos, o conhecimento, o desejo são fortemente incorporados ao atual regime de acumulação capitalista.

Deleuze e Guattari chamam atenção em todo o Anti-édipo e mais tarde em Mil Platôs para a coextensividade da produção desejante e da produção social, mostrando que o socius não é um todo autônomo mas um campo de variações entre uma instância de agregação (máquinas molares — técnicas e sociais) e uma superfície de errância (máquinas desejantes) como regimes diferentes de uma mesma produção imanente. Contrariando a tradição que ligava o desejo à falta de objeto e a economia política que reduz as relações entre forças à dimensão capital e trabalho, afirmam que a economia do desejo e a economia política são uma só: economia de fluxos. Homem e natureza estão imersos numa “universal produção primária”, produtividade de fluxos e cortes de fluxos da produção desejante, que se caracteriza pelo produzir sempre o produzir, pelo injetar produzir no produto, pela produção de produção.

O capital vem esbarrando nos limites absolutos do processo real de valorização e, apesar de empurrar estes limites cada vez mais para frente em sua lógica de expandir-se – via mundialização e “vampirização” das sinergias da vida —, tem se defrontado com alguns entraves reais (para onde mais se expandir). Tais entraves o fazem assaltar, não somente, os últimos recursos disponíveis e gratuitos da natureza (água, ar, luz solar), mas, sobretudo, tomar para si a gestão da vida em suas dimensões biológicas e subjetivas, fazendo do sono, do desejo, da afetividade e da sexualidade, um terreno direto da valorização do capital.

Artigo completo: http://server.slab.uff.br/textos/texto81.pdf

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